Nunca se viu tanta mobilização nas redes públicas como nos últimos meses. Movidos pela necessidade de mudar os indicadores educacionais - e pela perspectiva de receber recursos para atingir as metas -, secretários de Educação, diretores de escola, coordenadores pedagógicos, professores e, em muitos casos, membros da comunidade uniram-se para elaborar o Plano de Ações Articuladas (PAR), uma das ferramentas do Plano de Desenvolvimento da Educação (PDE).
Foto: Veruska Oliveira
GESTÃO EDUCACIONAL Nas decisões sobre política educacional, quanto mais participação melhor. Por isso, uma das exigências do MEC para a liberação de recursos é a formação do Conselho Municipal e dos conselhos escolares. Icatu, no Maranhão, formou um grupo também para acompanhar o PAR, com funcionários da Secretaria, diretores, coordenadores e professores. A equipe contou com o apoio do governo estadual. "Uma união que deu certo", afirma Anny Gomes (a segunda, sentada, da esq. para a dir.).
A divulgação do Índice de Desenvolvimento da Educação (Ideb) de 2007, em junho, mostrou que os municípios que ref letiram sobre seus problemas estão no caminho certo: parte deles melhorou a nota em relação a 2005. É certo que os objetivos eram tímidos: várias cidades precisavam de apenas um décimo a mais na média final. Mesmo assim, algumas superaram as expectativas. "O mais importante é garantir a efetividade das mudanças e a consistência das informações", afirma Cleuza Repulho, assessora do Ministério da Educação (MEC) para a implantação do PAR (saiba mais sobre o documento na entrevista da página 22).
Os indicadores educacionais ainda são sofríveis - apenas 62 cidades têm nota superior a 6, o objetivo nacional para 2021. Porém, o que está empolgando os educadores é o encaminhamento das soluções: existe uma metodologia que permite um diagnóstico preciso (o PAR), e a Educação passa, efetivamente, a ser tratada como um problema público. "As ações centralizadas acabam com a fragmentação das políticas públicas", diz Romeu Caputo, diretor de Apoio aos Sistemas da Secretaria de Educação Básica do MEC.
O PAR foi dividido em quatro grandes áreas: gestão educacional, formação de professores e de profissionais de serviços e apoio escolar, práticas pedagógicas e avaliação e infraestrutura e recursos pedagógicos. O formulário detalhado permitiu que as redes preenchessem o documento em pouco tempo. Técnicos do MEC foram enviados para auxiliar diretamente a equipe de educadores locais. Alguns governos estaduais, para agilizar o processo, tomaram a iniciativa de ajudar os secretários municipais. No Maranhão, foi criada a Assessoria aos Municípios para o Desenvolvimento da Educação (Amde) e em poucos meses as 217 cidades do estado estavam com os PARs aprovados - e foram mais de 300 convênios assinados com o governo federal. "É uma revolução silenciosa", afirma Anny Kristen Pires Mendes Gomes, coordenadora da Amde.
Para constatar as mudanças, a equipe de NOVA ESCOLA visitou nove das dez cidades mostradas nesta reportagem - todas consideradas prioritárias pelo MEC. Mesmo sem recursos adicionais, as ref lexões sobre a maneira de gerir a Educação e de ensinar já provocam mudanças nas salas de aula, como se pode ver nos relatos a seguir.
1 GESTÃO EDUCACIONAL
Ilustrações: Luciano Veronezi

União, estado e município juntos pela Educação
A elaboração do PAR de Icatu, a 110 quilômetros de São Luís, foi um exemplo de integração entre as três instâncias do poder - um dos fatores apontados como diferencial para o sucesso do PDE. Assessores do MEC estiveram na cidade por três dias, junto com técnicos da Assessoria aos Municípios para o Desenvolvimento da Educação, ligada ao governo estadual. Eles trabalharam com a equipe da Secretaria Municipal, que delegou a cada um de seus coordenadores a responsabilidade de diagnosticar os problemas e acompanhar as ações reivindicadas. Diretores de escola, professores e membros da comunidade formaram um conselho gestor do PAR. O grupo se reúne regularmente para atualizar o andamento dos projetos. Um dos problemas que mereceram atenção do conselho foi a falta de professores especialistas. Dos 456 educadores da rede, apenas 18 têm curso superior e, claro, não dão conta da demanda.
Raimundo Nonato Gomes Marques Filho, formado para dar aulas da 1ª à 4ª série, leciona Língua Portuguesa para a 5a e a 6a. Claudivan Carvalho, com diploma do Magistério Superior, dá aulas de Arte e Ciências para turmas de 5ª a 8ª. "O diagnóstico mostrou a urgência das ações", afirma Maria Iracilda Freitas Albuquerque, secretária de Educação de Icatu. O concurso para admissão de 92 graduados já foi concluído, mas os aprovados serão chamados apenas em janeiro, a fim de que casos como os de Raimundo e Claudivan sejam resolvidos. Eles, por sua vez, aguardam os programas de formação previstos no PAR, na esperança de adquirir gradua ção para continuar à frente das disciplinas que há anos lecionam.
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