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Introdução
Na sua vida cotidiana, o estudante realiza diversos deslocamentos: 1. Vai à escola; 2. Visita parentes e amigos; 3. Faz compras, passeia, se diverte. E tais deslocamentos são, por vezes, bastante diversos entre os estudantes, tanto temporalmente quanto espacialmente. Muitas crianças conseguem conduzir as suas atividades cotidianas a pé, desenvolvendo o que alguns geógrafos chamam métricas pedestres. Nesses casos, há uma relação mais intrínseca entre tempo e espaço, pois as relações são mais diretas. O tempo do trajeto será diretamente relacionado à desenvoltura do caminhar da criança: se ela caminha mais rápido ou se caminha mais devagar. Mas, mesmo assim alguns obstáculos podem interferir na relação tempo-espaço, como por exemplo, fazer um desvio para caminhar por uma rua mais sombreada e calma ou encompridar o trajeto para atravessar uma avenida num faixa para pedestre (com semáforo) onde haverá mais segurança.
Agora, em algumas cidades, principalmente nas grandes cidades, a relação tempo-espaço dos deslocamentos realizados pelas crianças pode ser bastante complexa, dependente de diversas variáveis que compõem a realização de um trajeto: 1. Distância do lugar; 2. Horário do deslocamento; 3. Meio de transporte; 4. Custo do transporte, entre outros. Em alguns casos, a distância fator principal nos deslocamentos a pé acaba sendo um componente secundário na equação do ir e vir da criança.
A atividade proposta tem por objetivo equacionar e mapear alguns dos parâmetros que estão presentes nos deslocamentos cotidianos do estudante, para que ele aprenda a se reoperar espacialmente e relativize, com diversas formas de se medir (que aqui chamaremos de diversas métricas), o que está perto e o que está longe . A idéia principal é que nem sempre o mais próximo, em metros ou quilômetros, será o mais acessível. Será importante também para que o aluno possa comparar os seus deslocamentos com os deslocamentos dos seus colegas e pensar o uso que se faz da cidade no dia a dia.
Objetivos
- Contribuir na construção da percepção de proximidade e distância;
- Contribuir na construção da percepção de acessibilidade;
- Exercitar a representação de algumas métricas que podem ser utilizadas para medir as distâncias entre os lugares.
Espera-se como desdobramento desse plano de aula que as seguintes expectativas de aprendizagem sejam alcançadas:
- Que os estudantes sejam capazes de escolher caminhos e outros meios de deslocamentos que sejam mais adequados e/ou mais eficientes;
- Que os estudantes sejam capazes de medir distâncias entre os lugares.
Conteúdos
- Deslocamentos
- Medidas do espaço
- Espaço cotidiano
Ano
3º, 4º e 5º
Tempo estimado
4 aulas
Material necessário
Cadernetas para anotação
Relógio
Mapas da cidade
Guia de ruas
Lápis preto
Lápis colorido
Cartolina branca
Barbante para construção de um compasso
Régua
Desenvolvimento das atividades
Primeira aula
O (A) professor (a) apresentará a primeira parte da atividade que se constitui da observação e mensuração dos percursos que o aluno faz no cotidiano. A anotação deverá ser feita durante uma semana, compreendendo também o sábado e o domingo.
Preparação: é interessante conversar com os alunos que parte das atividades que eles fazem durante o final de semana pode ser caracterizada como lazer. Seria bom aproveitar a idéia de lazer para definir os limites espaciais do cotidiano, e definir mesmo o que é cotidiano: se no final de semana, ou mesmo num dia de semana, uma parte do tempo for destinado a um deslocamento e a uma atividade de diversão isso é o lazer.
Mas e se essa diversão não puder ser feita num final de semana, porque é longe demais, porque precisa de mais tempo? Quer dizer: se não couber na vida corrente essa atividade será designada como turismo: um lazer que não cabe no cotidiano. Assim cotidiano é o conjunto de atividades que realizo na minha corrente e que tem limites geográficos. Há localidades que não posso freqüentar no meu cotidiano. O limite geográfico do meu cotidiano define o que se chama de lugar. Lugar é a dimensão geográfica do cotidiano. Assim o turismo é algo fora do meu cotidiano e do meu lugar.
Execução: a anotação deverá conter 1. Percurso a ser realizado (casa-escola, por exemplo); 2. Hora de saída do ponto de partida; 3. Hora da chegada no destino; 4. Tipo de transporte utilizado; 5. Valor gasto no transporte (no caso de transporte coletivo). Como apoio deverá ser apresentado um mapa da cidade (caso não exista o acesso a um mapa, pode ser utilizada uma imagem do Google Earth da cidade ou o (a) professor (a) poderá realizar um croqui). Esse mapa será um mapa comum, da classe. Cada aluno deverá, com a ajuda do professor, fazer a localização de sua casa. A anotação do endereço deverá ser feita em casa com a ajuda de um adulto, assim como a indicação de referências para a localização da casa do aluno no mapa. No mapa a localização poderá ser feita pelo número de chamada do aluno. O (a) professor (a) então deverá fazer um traço com régua da casa de cada aluno até a escola.

Fonte : BERTIN, Jacques. Semiologie graphique : les diagrammes, les reseaux, les cartes. Paris : EHESS, 1998. (Les ré-impressions des Éditions de L Ècole des Hautes Études en Sciences Sociales)
Este é o mapa gerado por Paul-Henry Chombart de Lauwe que mostra os trajetos realizados durante um ano por uma jovem do 16º arrondissement (bairro) em Paris. A idéia de fazer o mapeamento dos deslocamentos cotidianos do aluno durante uma semana é a de visualizar a área que compreende o seu cotidiano.
Será construído um mapa como o exposto acima, onde será possível visualizar a área de abrangência da escola e as localizações dominantes. Durante a semana, os alunos deverão se familiarizar com este mapa comum e diversas discussões poderão ser feitas com base nele, como por exemplo: 1. Onde estão as localizações dominantes e quais as características das áreas nas quais há maior presença de moradias de estudantes: são mais densas? Têm mais moradias? Têm muitos apartamentos? Têm menos comércio? 2. Como são as áreas nas quais há localizações, mas em menor número: são menos densas? Têm mais moradias horizontais e menos apartamentos? Têm mais comércio e outros negócios que moradias? Há presença de parques, o que diminui o espaço para as moradias? 3. Outra coisa: vale pensar nas estratégias espaciais que foram adotadas (neste caso pelos pais) para que os alunos estudassem naquela escola (estratégias de transporte: sistema solidário de caronas, transporte escolar, facilidade de transporte coletivo, acesso pedestre; preocupações com segurança; preocupações ambientais etc.) Com essa atividade, trabalha-se uma visão da paisagem local relacionada às localizações e aos deslocamentos, e ao mesmo tempo exercita-se uma cartografia interessante.
Segunda aula
A segunda aula vai aproveitar as atividades que foram propostas anteriormente: 1. Os procedimentos de anotações; 2. E o mapa construído e parcialmente analisado. Houve uma semana de anotações sobre os deslocamentos cotidianos do aluno. Nesse período é importante que o (a) professor (a) sempre tenha verificado se foram feitas as anotações e quais foram as dificuldades. Uma das dificuldades pode ser, por exemplo, a anotação dos horários de partida e chegada.
Sistematização: o primeiro passo será o de se chegar a uma média do tempo gasto para ir e voltar (ida-volta) à escola durante a semana: o (a) professor (a) deverá orientar como se chegar a média e explicar o seu sentido (um dia o percurso pode ter sido de 40 minutos, outro dia de 35 minutos e assim por diante. Por isso deve se chegar a uma média). Com isso os alunos individualmente terão um resultado de quanto é a média de tempo gasta por dia neste deslocamento. O segundo passo será construir um cartograma (cf. modelo abaixo) onde serão plotados (assinalados no cartograma segundo o número de chamada) os tempos médios dos deslocamentos dos alunos. 
Para tanto, utilizará a cartolina branca e pedaços de barbante com tamanhos específicos relativos às classes de tempo gasto neste deslocamento pelos alunos. Por exemplo: constatou-se que o menor tempo gasto é 10 minutos e o maior tempo gasto 1 hora e 30 minutos. É importante que os números dos alunos sejam plotados na direção da casa de cada um (norte, sul, leste e oeste). Se a casa do aluno n012 está a norte da escola, numa distância tempo de 35 minutos, esta será plotada logo na seqüência da linha de 30 minutos. O resultado será uma espécie de nuvem de números nos círculos concêntricos que subsidiarão a discussão sobre onde está a maior parte dos alunos, mais próximos ou mais distantes da escola, com relação à distância tempo, que como se verá não é a mesma coisa que a distância-quilômetro. Alguém pode estar mais próximo na distância-quilômetro e mais distante na distância-tempo.
Terceira aula
Nesta aula será feito outro cartograma com base no de distância-tempo realizado na aula anterior. Será incluída a informação do tipo de transporte utilizado para ir de casa para a escola e voltar da escola para casa. Para tanto, será feita uma classificação dos tipos de transporte utilizados e criada uma legenda com cores diferentes: a pé, de carro, de perua escolar, de ônibus escolar, de ônibus de linha, de metrô, ou outros tipos de transporte que existirem na região da escola. Será adotada uma cor para cada tipo de transporte e os números dos alunos serão substituídos por pontos coloridos. Esta é uma tarefa conjunta a ser realizada com os alunos. Cada aluno fará o seu pequeno círculo colorido no cartograma de tempo. Será interessante perceber a relação do tempo gasto para se chegar a escola e a relação com o tipo de transporte. Uma discussão poderá ser promovida após a visualização das relações. Por exemplo, alguém pode estar próximo na distância-quilômetro, mas distante na distância-tempo, porque usa transporte coletivo que é lento e percorre caminhos congestionados.
Quarta aula
Na quarta aula, o aluno fará o mapa individual da espacialização do seu cotidiano. Para tanto, cada aluno deverá ter uma cópia do mapa da cidade ou do município, se for uma área rural. Ele localizará no mapa da cidade, a partir da sua casa, quais foram os lugares visitados por ele durante a semana. Após a plotagem destes lugares com pontos, ele fará a ligação em linha reta, com régua, entre a sua casa e esses pontos e elaborará um mapa dos seus deslocamentos cotidianos. Neste mapa será verificado qual é o espaço (lugar) que ele utiliza cotidianamente para viabilizar suas atividades. Os mapas deverão ser colados nas paredes da sala de aula para que todos os alunos vejam o conjunto dos mapas. Deverá ser promovida uma discussão dos diferentes resultados observados: por que há espaços cotidianos maiores ou menores, quais são as atividades que transformam os espaços cotidianos em locais maiores ou menores, como um aluno precisa de muitos deslocamentos e outro consegue fazer suas atividades com deslocamentos menores, etc. Com essas atividades os estudantes poderão vivenciar por meio de representações a complexidade dos deslocamentos em seu lugar, em seu cotidiano. Verão que o espaço é algo relativo à várias medidas, às várias formas de uso, o que contribui para desenvolver competências cognitivas fundamentais.
Avaliação
Além da participação nas atividades propostas para desenvolver a percepção da espacialidade cotidiana, poderão ser feitas tarefas com outras anotações realizadas pelo aluno, como por exemplo, o custo dos deslocamentos. O aluno poderá pedir informações aos adultos sobre o custo dos deslocamentos da família e quais seriam as formas de torná-los mais baratos. Em suma: a participação no processo, com as várias alternativas que ele permite será mais do que suficiente para se avaliar o estudante. Será mais importante que os resultados obtidos.
CIÊNCIA HOJE na escola (volume 7). Tempo & Espaço. Rio de Janeiro: Ciência Hoje, 2003. 4ª edição. [elaborado por] Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência.
Nessa publicação os professores podem encontrar artigos e experimentos sobre o tempo e o espaço elaborados por professores brasileiros e reunidos pela Ciência Hoje na escola - SBPC
Professor e autor de livros didáticos na área de Geografia.
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