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Planos de aula

Ensino Fundamental II
Geografia Formação Socioespacial Urbanização

Seqüência Didática

Brasil urbano: a emergência das cidades médias

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Introdução
O ano de 2008 entrará para a história como marco importante da aventura humana: pela primeira vez, a partir desse ano, mais da metade da população mundial estará vivendo em cidades. Conforme o relatório do Fundo de População da Organização das Nações Unidas (ONU) intitulado “O estado da população urbana mundial em 2007: liberar o potencial de crescimento urbano”, publicado em 2007, isso representa um contingente de cerca de 3,3 bilhões de pessoas, mesmo considerando que existem diferentes critérios para definir o que sejam as cidades e a urbanização.

A previsão é que, em 2030, o número de habitantes nas cidades atinja 5 bilhões. O crescimento urbano ganhará força notadamente em regiões da África e da Ásia, onde grande parte da população ainda vive no campo. O crescimento da população nas cidades – e da população como um todo – será menor na Europa e na América do Norte. A América Latina e o Caribe vêm conhecendo elevados índices de urbanização de sua população há pelo menos três décadas e não deverão apresentar grande variação no crescimento da população urbana e total.

O estudo da ONU recomenda também que, nesse contexto, é preciso que as sociedades e os gestores públicos, em vez de procurar expulsar ou conter a chegada de novos contingentes, devem formular políticas para integrar as pessoas à vida nas cidades, especialmente os mais pobres. Em outras palavras, significa resguardar o direito à cidade para todas as pessoas.

O Brasil também vem acompanhando essa marcha da urbanização: em 1940, apenas 30% da população total do país – pouco mais de 40 milhões de pessoas - vivia em cidades. Segundo dados da PNAD 2007 (ano-base 2006), realizada pelo IBGE, hoje cerca de 83% da população mora em cidades, algo em torno de 140 milhões de habitantes. Portanto, 8 em cada 10 brasileiros vivem em núcleos urbanos.

É fato conhecido que grande parte da população urbana concentra-se no Sudeste do país, em especial em grandes áreas metropolitanas como São Paulo (17 milhões na Grande São Paulo) e Rio de Janeiro (pouco mais de 10 milhões na Grande Rio). Em 2006, 56,3 milhões de brasileiros viviam nas nove maiores regiões metropolitanas do país.

Além do aumento da população urbana, vem ocorrendo no país também uma urbanização do território: além do crescimento da população urbana e do número de cidades, os núcleos urbanos passam a se espalhar mais por todos os estados e regiões do país, constituindo uma rede urbana mais ampla, mais interligada e mais complexa. Vale dizer também que se expande o modo de vida urbano para além das cidades, apoiado no desenvolvimento dos modernos sistemas de transportes, telecomunicações e informações.

Baseados no processo de modernização econômica do país, em especial na segunda metade do século 20, as duas metrópoles, com destaque para São Paulo, passam a formar o coração econômico do país, concentrando recursos de toda ordem e articulando em seu entorno uma constelação de aglomerações urbanas e cidades médias.

Por outro lado, vem ocorrendo nos últimos anos uma tendência à desconcentração de atividades - sobretudo industriais -, com o deslocamento de unidades produtivas do núcleo central de metrópoles como São Paulo para outras cidades e aglomerações urbanas de diferentes portes e localizadas em diferentes estados e regiões. É nítida também a redução no ritmo de crescimento populacional de São Paulo e do Rio de Janeiro – o que não significa a redução do poder e influência nacional e internacional de ambas. Nesse quadro, crescem também as outras aglomerações urbanas metropolitanas e não-metropolitanas e também um certo número de cidades médias por todo o país. Portanto, temos uma situação em que permanece o peso acentuado das metrópoles, ao mesmo tempo em que há a desconcentração ou repartição de atividades entre as metrópoles e outros núcleos. Nas palavras de Milton Santos, um “reforço da metropolização juntamente com uma espécie de desmetropolização”.

Esta seqüência didática propõe que os estudantes analisem a emergência e a consolidação das cidades médias no país, estabelecendo relações com processos econômicos e sociais correspondentes. O estudo permitirá que os estudantes possam traçar cenários para a cidade e a região em que vivem, destacando rumos e perspectivas.

Objetivos
Utilizar recursos da leitura, escrita, observação e registro em procedimentos de pesquisa. Compreender processos de urbanização e estruturação da rede urbana brasileira e problemas decorrentes.

Conteúdos específicos
Urbanização – metropolização – cidades médias

Ano
7º e 8º anos

Tempo estimado
4 aulas

Material necessário
Texto de apoio, gráfico e mapa

 

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THÉRY, Hervé; MELLO, Neli A. Atlas do Brasil: disparidades e dinâmicas do território. São Paulo: Edusp, 2005, P. 173. 

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Brasil: regiões metropolitanas 

Desenvolvimento
1ª aula
Para iniciar o trabalho desta seqüência didática, proponha que os estudantes analisem o gráfico em anexo, com a evolução da população urbana e rural do país. Evidencia-se o predomínio da primeira, em especial a partir do salto ocorrido entre os anos 1960 e 1970. Contribuíram para esse quadro a forte migração campo-cidade no período e a progressiva concentração de recursos técnicos, econômicos e financeiros, sobretudo em São Paulo. Tornaram-se muito conhecidos, por exemplo, os casos de migrantes nordestinos que se dirigiam à capital paulista para trabalhar na indústria da construção civil. Em seguida, proponha que examinem também o mapa com as maiores aglomerações metropolitanas do país. Sugira que examinem sua distribuição, destacando antigas e novas aglomerações. Assinale a primazia do Centro-Sul nessa distribuição espacial, em especial do estado de São Paulo. Com as observações do gráfico e do mapa, proponha que os estudantes organizem um quadro-síntese com cronologia e marcos principais da urbanização brasileira em cada período. 

2ª aula
Retome os pontos discutidos na aula anterior e proponha a seguir uma pesquisa para identificar as cidades médias que vêm tendo crescimento nos últimos anos (veja as indicações nesse plano). São núcleos de importância econômica regional e população na faixa dos 100 mil a 500 mil habitantes, cuja emergência resulta da descentralização de atividades produtivas, uma nova divisão territorial do trabalho no país. Importa também para essas cidades os processos de desenvolvimento do espaço produtivo regional em que se inserem. Tais processos foram possíveis em função de mudanças nas condições geográficas: a modernização de redes técnicas territoriais (rodovias, portos, aeroportos, ferrovias para transporte de carga, telefonia fixa e móvel etc.) tem viabilizado a maior ligação e articulação entre os diferentes núcleos urbanos. Vejamos alguns exemplos:

A cidade de Florianópolis talvez possa ser considerada o caso mais significativo: com pouco menos de 400 mil habitantes e receitas baseadas no turismo, serviços, comércio e indústria de transformação, a capital catarinense conheceu um crescimento de 6% do seu PIB per capita ao longo dos anos 1990, atraindo como mão-de-obra especializada contingentes de classe média, muitos deles egressos de cidades maiores.

Outro exemplo é o de Campina Grande, na Paraíba, que vem se destacando pela constituição de um importante parque científico, tecnológico e de empresas industriais. A cidade é sede, por exemplo, de unidades de universidades federal e estadual, de um pólo digital e de unidade da Embrapa.

No Ceará, foram instaladas nos municípios de Sobral, da Região Metropolitana de Fortaleza e do Vale do Cariri (Juazeiro do Norte, Crato) inúmeras fábricas de calçados. No Rio Grande do sul, Caxias do Sul e municípios vizinhos, como Bento Gonçalves e Farroupilha, também constituem uma importante aglomeração de economia de base industrial diversificada (incluindo cadeia automotiva), além da tradição vinícola, e indicadores sociais elevados.

No Centro-Oeste, Dourados, hoje a segunda maior cidade de Mato Grosso do Sul, conheceu um rápido crescimento baseado no setor agroindustrial baseado no cultivo de grãos (soja, milho, trigo) e produção de carne para exportação. Vale a pena citar também os exemplos de pólos tecnológicos ou industriais como os de Joinville (SC), Santa Rita do Sapucaí (MG), São Carlos (SP), Ilhéus (BA), Itajubá (MG) e Igarassu (PE). É importante que os estudantes, além de dados econômicos e demográficos, levantem também indicadores sociais dos municípios escolhidos. 

3ª e 4ª aulas 
Nas duas aulas restantes, proponha que os alunos, divididos em pequenos grupos, elaborem um mapeamento desses núcleos urbanos, o que permitirá analisar sua distribuição espacial e articulações com os espaços regionais e metrópoles regionais e nacionais. É importante salientar também que várias cidades entre as citadas acima compõem regiões metropolitanas, que são organismos de gestão político-administrativa criados pelos estados.

Promova uma discussão com toda a turma sobre os resultados e sugira uma reflexão sobre as vantagens e desvantagens de se viver em núcleos urbanos como os que foram objeto da pesquisa. Convide também a uma reflexão sobre os desafios futuros dessas cidades, em especial no que diz respeito ao planejamento urbano e à sua governabilidade.

Avaliação
Avalie os trabalhos de leitura e interpretação do gráfico e do mapa, solicitando que os alunos elaborem textos ou quadros com sínteses parciais. Observe também a participação individual e coletiva e procure aferir nas conversas e debates coletivos o que os alunos já sabem e o que puderam aprender sobre o assunto. Valorize as opiniões, as capacidades argumentativas e o uso de conceitos e informações a respeito do tema.

Texto de apoio
As cidades médias na encruzilhada das verticalidades e horizontalidades
As cidades médias têm entre os seus principais papéis o de servir de suprimento imediato e próximo da informação requerida pelas atividades agrícolas e desse modo se constituem em intérpretes da técnica e do mundo. Em muitos casos, a atividade urbana acaba sendo claramente especializada, graças às suas relações próximas e necessárias com a produção regional.

Tal produção encontra na cidade próxima muitas respostas às suas exigências em ciência, técnica e informação, incluindo uma demanda importante de bens e serviços técnicos e científicos. Dá-se também uma importante demanda de “racionalidade” empregada no plantio, nos cuidados, na colheita, na armazenagem, estocagem, empacotamento, transporte e comercialização. Tal racionalidade inclui a atividade agrícola em sistemismos que se contagiam mutuamente e se difundem, presididas pela cidade média próxima.

Uma das tarefas da cidade no campo modernizado é, pois, a oferta de informação – imediata e próxima – a uma atividade agrícola que, nos dias atuais, já não pode ser feita sem esse insumo. Às vezes a cidade é produtora dessa informação, o que é o caso, por exemplo, das aglomerações onde há instituições de ensino de pesquisa pura e aplicada. Todavia, configurando verticalidades, cabe em muitos casos à cidade somente transferir ao mundo agrícola informações especializadas, selecionadas pelos interessados na sua difusão. (...)
De maneira geral, na cidade do campo a produção regional acaba por influir sobre as iniciativas dos agentes urbanos. As atividades de fabricação e serviços são, em geral, tributárias da atividade regional e, desse modo, relativamente especializadas a partir dessa inspiração.

(Milton Santos e María Laura Silveira. Brasil: território e sociedade no início do século XXI. Rio de Janeiro: Record, 2001, p. 280-282)

Quer saber mais?

Bibliografia
A cidade e o urbano no mundo atual, de Roberto Giansanti. São Paulo: Global, 2004 (Coleção Viver, Aprender). Atlas do Brasil: disparidades e dinâmicas do território, de Hervé Théry e Neli A. Mello. São Paulo: Edusp, 2005 (Capítulo 7 – Dinâmicas urbanas).
Caracterização e tendências da rede urbana no Brasil, estudo do IPEA. IBGE. Unicamp. IE. NESUR. Brasília: IPEA, 2001 (5 vols.)
Espaço e modernidade: temas da Geografia do Brasil, de Jaime Oliva e Roberto Giansanti. São Paulo: Atual, 1999 (Seção 7 – A urbanização brasileira).

Internet
No portal do IBGE há dados atualizados sobre os processos de urbanização no Brasil. Consulte os Censos demográficos, a Contagem da População 2007 e o estudo Estatísticas do século XX. Confira também os textos do volume Brasil: 500 anos de povoamento.
Relatório O estado da população mundial 2007: liberar o potencial de crescimento urbano, organizado pelo Fundo de População da ONU.
Sobre redes urbanas e cidades médias, dois estudos de caso podem ser encontrados nos seguintes portais: Roberto Braga/Unesp/Rede urbana do Estado de São Paulo
Kelly Cristine Bessa/IG-UFU/Uberlândia
Textos sobre urbanização brasileira escritos pelos geógrafos Adriana Bernardes, Milton Santos, Maria Laura Silveira, Elisa de Almeida e outros.

Consultoria: Roberto Giansanti

Professor de Geografia, autor de livros didáticos para Ensino Fundamental, Ensino Médio e Educação de Jovens e Adultos e consultor educacional.

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