
| Arte | Linguagem Teatral | Produção Coletiva |
Introdução:
O teatro como meio didático oferece a oportunidade para que os alunos conheçam mais a si próprios e aos outros que os cercam, operando a arte como um processo coletivo. Ao construir cenas e exercitar a improvisação, os alunos recriam cenas vividas por eles, cenas cotidianas, utilizam a imaginação, a criatividade e a percepção para desenvolverem um olhar diferenciado sobre si mesmos e sobre as situações cotidianas. É compartilhando descobertas, sentimentos, idéias e atitudes que os alunos estabelecem uma relação entre sua própria individualidade com a coletividade, desenvolvendo melhor a socialização.
Devemos observar que a prática teatral escolar deve ter como base a observação e a improvisação. O teatro na escola não busca a formação de atores, mas o constante exercício da prática social dos alunos, permitindo que eles trabalhem melhor em conjunto, se expressem com mais desenvoltura e, obviamente, desenvolvam sua consciência crítica. Podemos, portanto, pensar neste projeto didático como um jogo teatral que busca a familiarização dos alunos com a linguagem corporal, a presença de cena e os aspectos de produção coletiva. Portanto, propomos uma série de exercícios que desenvolvam a capacidade do aluno de produzir, dialogar e interagir com o seu grupo. Por isso, consideremos a seguir alguns aspectos que o professor deve ter em mente ao realizar o projeto.
1) Performance e arte corporal
Desde a Pré-história, rituais religiosos envolviam algum tipo de pintura corporal, dança ou encenação, participando dessa interação coletiva toda a comunidade. Na civilização ocidental, entretanto, houve a separação das diversas áreas do conhecimento: música, teatro, dança, poesia e pintura. Somente no início do século XX, com a incidência dos movimentos modernistas, é que surgiram trabalhos que não podiam ser classificados em nenhuma desses segmentos culturais.
A partir da década de 60, surgiria o termo “performance”, termo que em inglês quer dizer “atuação ou seqüência de gestos ou atitudes desenvolvidas pelo artista”.A performance, diferente do teatro, não necessita de uma narrativa linear para ser exteriorizada. Ela pode ser desenvolvida por meio de movimentos corporais, acompanhados ou não de música, por meio de declamação de uma poesia ou, até mesmo, por uma série de atos inovadores.
2) O teatro e a representação
Uma vez que o teatro é produto humano, ele busca seus temas. Como representação, o teatro se apropria de inúmeras metáforas para imitar atos da vida. A partir de certas caracterizações e imitações, em determinada narrativa, a representação teatral se expressa, perante seu público, por meio de idéias ou tentativas de nada expressar.
3) Teatro e observação
O primeiro passo para a representação diz respeito à observação. Por meio do teatro, aquele que representa observa si mesmo e as pessoas ao seu redor. A interpretação no teatro é sempre um a o de interação entre atores e, também, entre estes e o público espectador.
Em um exercício para a prática teatral, quanto mais dois alunos se observam, mais sensações, sentimentos e idéias surgem dessa relação. Por conseguinte, originam-se inúmeras possibilidades de movimentos a partir dessas experiências sensoriais.
Para que uma interpretação não pareça artificial é importante que o aluno de teatro, portanto, observe cada gesto, movimento, detalhe do comportamento humano.
4) Teatro e improvisação
Improvisar é ser espontâneo, é interpretar de forma não-pensada. Dessa forma, a melhor maneira do aluno de teatro improvisar é se relacionar com alguém ao seu redor, com ele mesmo ou, até mesmo, com objetos que o circundam. Estar nessa interação é estar disponível para sentir todos os elementos e características de seres próximos de quem interpreta, sejam estes vivos ou inanimados. Na improvisação não se define previamente os papéis estabelecidos nessa relação cênica e, por conseguinte, inúmeras possibilidades nascerão dessa interação.
5) Ser humano como objeto
Cada vez que o aluno se depara com alguém nesse exercício teatral, o olhar sobre uma pessoa transforma-se para que esta assuma um outro papel. É o momento em que o ser humano torna-se, na visão de quem interpreta, um objeto. É com esse objeto, portanto, que o atuante se relaciona.
É importante não interpretar essa relação de maneira superficial, visto que, em uma situação teatral, há uma interação em duplo sentido: como eu vejo o outro e como o outro me vê. E, assim, estabelecem-se as relações humanas, cujas representações são ensaiadas antecipadamente ou improvisadas.
6) O corpo e os gestos
É por meio dos gestos e das atividades sensoriais que o corpo se expressa, se comunica e se relaciona. O corpo é teatro; é ele que possibilitará a prática de quaisquer improvisações.
Objetivos:
- compreender o teatro em suas dimensões artística, estética, histórica, social e antropológica;
- compreender a organização dos papéis sociais em relação aos gêneros (masculino e feminino) e contextos específicos como etnias, diferenças culturais, de costumes e crenças, para a construção da linguagem teatral;
- improvisar com os elementos da linguagem teatral.
- pesquisar e otimizar recursos materiais disponíveis na própria escola e na comunidade para a atividade teatral;
- estabelecer relação de respeito, compromisso e reciprocidade com o próprio trabalho e com o trabalho de colegas na atividade teatral na escola;
- reconhecer a prática do teatro como tarefa coletiva de desenvolvimento da solidariedade social.
Conteúdos específicos:
- Participação em improvisações, buscando ocupar espaços diversificados, considerando-se o trabalho de criação de papéis sociais e gêneros (masculino e feminino) e da ação dramática.
- Reconhecimento e utilização das capacidades de expressar e criar significados no plano sensório-corporal na atividade teatral.
- Identificação e aprofundamento dos elementos essenciais para a construção de uma cena teatral: atuantes/papéis, atores/personagens, estruturas dramatúrgicas/peça, roteiro/enredo, cenário/locação (definido pela organização de objetos de cena, ou ainda pelo jogo de cena dos atuantes).
- Exercício constante da observação do universo circundante, do mundo físico e da cultura (de gestos e gestualidades próprias de indivíduos ou comunidades; de espaços, ambientes, arquiteturas; de sonoridades; de contingências e singularidades da nossa e de outras culturas).
- Experimentação, pesquisa e criação com os elementos e recursos da linguagem teatral, como: maquiagem, máscaras, figurinos, adereços, música, cenografia, iluminação e outros.
- Experimentação de construção de roteiros/cenas que contenham: enredo/história/conflito dramático, personagens/diálogo, local e ação dramática definidos.
- Experimentação na adaptação em roteiros de: histórias, notícias, contos, fatos históricos, mitos, narrativas populares em diversos períodos históricos e da contemporaneidade.
- Experimentação, pesquisa e criação dos meios de divulgação do espetáculo teatral como: cartazes, faixas, filipetas, programas e outros.
- Participação de todo o grupo nos exercícios e apresentações sem distinções de sexo, etnia, ritmos e temperamentos, favorecendo o processo intergrupal e com outros grupos da escola ou da comunidade.
- Pesquisa e otimização dos recursos próprios para a atividade teatral disponíveis na própria escola e na comunidade.
Ano:
7º e 8º
Tempo estimado:
Três meses
Desenvolvimento das atividades:
Primeira etapa:
Na primeira etapa de atividade, é importante que o professor contextualize o tema com os alunos e discuta com eles a importância da produção coletiva na sociedade: o teatro na escola serve como uma ponte para que o aluno relacione o que vivencia com seu modo de conviver em sociedade, em grupo. Reúna os alunos em um espaço no qual eles possam se movimentar livremente. Se a escola tiver um palco, reserve-o para suas atividades; ou leve-os para a quadra; ou ainda desenvolva as atividades dentro da própria sala de aula, afastando todas as carteiras e deixando livre o maior espaço possível.
Converse com os alunos sobre as características que permeiam o teatro como produção coletiva: ressalte a importância de trabalharem em grupo, pois o teatro, até no monólogo, é uma produção coletiva. Leve fotografias para ilustrar o tema. Como sugestão, há o filme “Shakespeare apaixonado”, que ressalta tanto a produção em coletividade quanto o teatro no período elisabetano, e ainda os figurinos, o texto, o público, a função social da arte e os sentimentos despertados nos seres humanos ao se deparar com a arte. Focalizando no projeto como produção coletiva, o professor pode apresentar para os alunos os exercícios que propomos para a segunda etapa do projeto e discutir com eles quais seriam mais interessantes. Deixe os alunos livres para que possam produzir e para que se sintam parte do projeto.
Segunda etapa:
Para a segunda etapa do projeto, escolha pelo menos seis exercícios para serem feitos com os alunos. Além da realização dos exercícios, é importante que os alunos prestem bastante atenção em tudo o que fazem, na atividade como um todo. O registro escrito das atividades também é importante. Portanto, separe um tempo após as aulas para que os alunos possam registrar as impressões que tiveram durante as etapas do projeto.
Os exercícios propostos são:
Espelho – um dos mais conhecidos exercícios de improvisação aplicados em grupos teatrais, o espelho consiste em duas pessoas se colocarem frente a frente, a fim de serem espelho uma da outra. Em um primeiro momento, enquanto uma pessoa pratica ações, por meio de gestos, a outra as copia, observando os detalhes que possam ser imprescindíveis para uma boa representação. Em um momento posterior, ambos intérpretes podem criar movimentos para que sejam copiados simultaneamente. Além disso, outras variações poderão ser criadas, como por exemplo, ações rápidas ou lentas. Dessa forma, há necessidade de maior concentração por parte de quem interpreta ou copia.
Mestre – consiste na formação de uma fila pelos alunos, a fim de que o primeiro participante dessa fila seja o mestre. O segundo aluno deverá copiar exatamente o que o mestre fizer, preferencialmente, sem som numa primeira fase. A um comando externo a pessoa que estiver na frente passará a ser a última da fila, copiando, dessa forma, o penúltimo integrante. Assim, altera-se sucessivamente a posição do mestre. Quando já for possível incluir som nesse exercício, coloque uma música e vá mudando de faixa de tempos em tempos; com a mudança de cada música haverá a alteração do mestre da fila.
Coisando – Nesse exercício, cada aluno escolherá um objeto para interagir na sala de aula. Simultaneamente, todos os participantes devem conversar com esse objeto a fim de serem geradas inúmeras sensações. A partir de um comando externo, a atividade é encerrada, a fim de que sejam discutidos todas os efeitos dessas experiências sensoriais.
Times – Os alunos, divididos em dois grupos, improvisam uma disputa, similar ao repente. Depois de que músicas são escolhidas por um grupo, o outro deverá responder a essas provocações complementando a letra da canção de maneira imediata. Esse exercício não indica ganhadores ou perdedores, mas sim possibilita o desenvolvimento de um rápido raciocínio lógico.
Times com coreografia – Divididos em dois grupos, em partes opostas da sala de aula, os alunos ficarão alinhados lado a lado. Inicialmente, os grupos devem andar em fileira, sem atropelos, até que se cruzem no meio da sala. Ao chegar nos extremos opostos, os alunos deverão repetir a ação, por meio de novo cruzamento, para que retornem às posições iniciais. É importante que o movimento seja sincronizado para que a fila se mantenha lateralmente. Depois, com a adição de som ao exercício, os grupos poderão produzir sons no momento em que se cruzarem no meio da sala.
Andando pelo espaço – o grupo todo de alunos deve se distribuir pela sala com o intuito de sempre encontrar espaços vazios. Sem que os alunos se esbarrem uns nos outros, devem caminhar, ininterruptamente, com tranqüilidade para que compreendam e sintam o espaço ocupado. Posteriormente, o professor ou um aluno previamente escolhido dará ordens que afetem a aceleração o ritmo dos movimentos (dirá, por exemplo, para que todos se apressem para não perder o ônibus). Em uma última fase, a velocidade da atividade será desacelerada para que os alunos ocupem o espaço da sala em câmera lenta.
Passa-passa – Em roda, de mãos soltas, os alunos deverão aguardar a ordem do professor ou de um aluno escolhido para ser o coordenador do exercício. Imagina-se um objeto (uma pequena bola, por exemplo) que será passado entre os alunos em círculo. Com isso, os movimentos de pegar e atirar o objeto serão representados pelos participantes, e até mesmo a possibilidade de se manter o objeto a ser observado nas mãos de quem o detém. Essa técnica de improvisação poderá acrescentar novos elementos ao objeto imaginado. Pode-se adicionar tamanho, temperatura, peso, textura ao objeto fictício.
Rápido e rasteiro – Após os alunos formarem uma roda, no centro dela serão colocados quaisquer objetos. Diante da permissão dada pelo coordenador do exercício, os participantes pegarão, aleatoriamente, um objeto até que não sobre mais nenhum. Assim sendo, os alunos interagirão com os objetos no momento em que criarem figurinos, cenários e personagens a partir desses elementos escolhidos.
Cego – Os alunos, em dupla, dispostos por toda a sala, deverão estar com os olhos vendados. O coordenador dessa atividade deverá distribuir sons (monossílabos, por exemplo) para cada dupla. Depois de cada participante ser rodado em seu próprio eixo, cada membro deverá percorrer todo o espaço ocupado a fim de encontrar o outro participante que compõe sua dupla. Essa tentativa de encontrar o outro deverá ser feita por meio de reprodução, em voz baixa, da palavra escolhida anteriormente pelo coordenador.
"Frazendo" – Cada participante deverá, em uma tira de papel, escrever qualquer frase curta. Depois que todas estiverem organizadas em um mesmo lugar, cada aluno, aleatoriamente, sorteará uma tira, pensando em três formas de dizer essas frases (triste, eufórico, com medo, em segredo, por exemplo). Isso será feito, em voz alta para toda a sala de aula, em cima de uma cadeira. Escolhe-se a melhor frase e todos devem reproduzi-la dos três modos previamente escolhidos pelo professor.
Imitando alguém – Por meio desse exercício de improvisação, os participantes poderão copiar, sem estereótipos, pessoas ou animais ao seu redor. Basta que o aluno consiga abstrair as características essenciais daqueles que o rodeiam.
Terceira etapa:
A terceira e última etapa do projeto será o momento de efetivar o que foi aprendido nas etapas anteriores. Separe a turma em grupos de 6 alunos e peça para que eles montem uma pequena esquete. O texto e a forma são livres, escolha com os alunos o que melhor lhes aprouver. Pode ser a letra de uma música, um poema, um trecho de livro ou algo que eles mesmos criem em grupo. Pense também nos gêneros: comédia, tragédia. Não se esqueça, o foco é sempre o coletivo. Divida as tarefas com o grupo: um integrante ficará por conta de organizar a atividade, outro cuidará dos figurinos e adereços (caso houver), etc. Dê um tempo limite, de 5 a 10 minutos, por exemplo, para a apresentação de cada esquete. Auxilie os alunos durante os ensaios e observe a forma como interagem.
Produto final:
Durante toda a realização do projeto, peça que os alunos registrem sempre suas impressões sobre o ocorrido. Impressões negativas também podem ser importantes, caso surjam, para avaliar o trabalho em coletividade e desenvolver o diálogo e o senso crítico. Ao final da realização das esquetes, peça que os alunos entreguem o texto na forma de roteiro e discuta com eles, em grupo, os resultados. Essas esquetes podem ser apresentadas para os outros alunos da escola, inclusive para os pais.
Avaliação:
Tenha em mente alguns critérios para avaliar os alunos. Verifique se os alunos buscam enfrentar os desafios propostos com seriedade e se ele consegue articular bem as estruturas presentes nos exercícios de improvisação. Observe a forma como ele sintetiza, por escrito, as experiências feitas no decorrer do projeto. Durante a realização das esquetes, tenha o olhar atento na forma como os alunos escolhem os figurinos, os textos e as cenas. É importante que durante toda a realização do projeto seja afastado qualquer forma de discriminação e estereótipos, seja discriminação estética, artista, étnica, de gênero e/ou sexualidade. Observe também como os alunos trabalham em grupo e sua capacidade de valorizar a opinião dos outros e ceder, em determinados momentos, para que o trabalho funcione em harmonia, com precisão.
BiIBLIOGRAFIA:
1. HADDAD, Denise Akel, MORBIN, Dulce Gonçalves. A arte de fazer arte, 8ª série. 2ª ed. reformulada. São Paulo: Editora Saraiva, 2004.
2. MEIRA, Beá. Arte, 7ª série. São Paulo: Editora Scipione, 2006. (Coleção Projeto Radix)
3. VÁRIOS AUTORES. Arte: projeto escola e cidadania para todos. São Paulo: Editora do Brasil, 2005.
4. SILVA, Armando Sérgio da. Oficina de Atores. São Paulo: EDUSP, 1989.
5. SILVA, Armando Sérgio da. J. Guinsburg: Diálogos sobre teatro. São Paulo: EDUSP, 2002.
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