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Planos de aula

Ensino Fundamental II
Arte Linguagem Visual Gêneros (Paisagens, Retratos, Natureza Morta etc.)

Projeto Didático

Tornando viva a natureza-morta

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Introdução
O termo natureza-morta é dado a uma pintura ou a um desenho de objetos inanimados. Comumente são utilizados frutas, animais abatidos (peixes, aves, crustáceos em geral) ou utensílios domésticos (bules, copos, pratos, vasos, entre outros) colocados, na maioria das vezes, sobre uma mesa. Em suas pinturas ou desenhos, enquanto alguns pintores adotam uma reprodução fiel do objeto observado, outros dão um tratamento diferenciado da realidade. 

O estudo da natureza-morta por parte dos alunos é de extrema importância para que eles desenvolvam qualidades e características fundamentais atribuídas, geralmente, ao aprendizado artístico: ao observar uma natureza-morta, por exemplo, o aluno pode relacioná-la ao seu próprio ambiente, buscando semelhanças e diferenças. Ao reproduzir uma natureza-morta, diversas técnicas podem ser utilizadas para desenvolver nos alunos o senso crítico e estético, o olhar diferenciado, uma nova interpretação do que ele vê, bem como um senso crítico em relação à sua obra e à do colega. 

Além disso, seguindo orientações dos Parâmetros Curriculares Nacionais, é importante, juntamente com a produção artística dos alunos, desenvolver neles o interesse pela história da arte, mostrando obras relevantes, descrevendo suas características e colaborando para que o aluno aprimore seu olhar em relação à arte. Daremos, a seguir, uma pequena contextualização do tema como orientação para o desenvolvimento de um projeto didático pelo professor.

Contextualização
Embora já houvesse traços de natureza-morta em murais da Roma Antiga, é no início do Barroco, durante o século XVI, que ela tornou-se independente ao retratar temas religiosos em cozinhas populares, como o óleo sobre tela de Diego Velázquez, “Cristo na casa de Marta e Maria” (National Gallery de Londres – Inglaterra):

A luz, importante elemento visual da arte do Barroco, é o que dá ritmo à obra, conduzindo o olhar sobre a composição e aos níveis de profundidade. Percebe-se que a reprodução ideológica do objeto observado, dentro de um contexto religioso, traria certas interpretações. “A natureza-morta passou a funcionar como metáfora moralizante dentro da cultura católica: a fruta que é bela por fora, mas apresenta indícios de podridão interna; ou apenas uma fruta que ostenta uma beleza tentadora e perigosa”. (3) Mais tarde, outras representações, fora desse contexto religioso, definiriam mais uma função da natureza-morta – o livro representava a sabedoria, a caveira representava a brevidade da vida. (Paul Cézanne – Pirâmide de Crânios, Grand Palais Exhibition, Paris, França, 1900).

Na Espanha, chamada de “bodegón”, a natureza-morta tinha o intuito de demonstrar a imagem do objeto que representasse harmonia, serenidade e bem-estar por meio de efeitos de luz, cores e perspectivas. O artista espanhol tornava-se cada vez mais respeitado à medida que demonstrava ter um amplo conhecimento técnico-artístico para a representação da realidade. 



No século XVII, considerada inferior em relação às pinturas históricas, mitológicas e religiosas, a natureza-morta tinha seu preço desvalorizado no mercado das artes. Vista como uma pintura meramente decorativa, ela ocupava, nos Países Baixos, os cômodos mais humildes dos lares populares. A tentativa de se afastar dessa ideologia católica fez com se passasse a retratar o uso cotidiano dos objetos das casas populares holandesas.

O pintor holandês Veermer, em sua obra “A leiteira” (tela pintada por volta de 1669) retratou o trabalho lento e meticuloso que retratava uma típica mulher holandesa da época. Com completa precisão, o pintor retrata a realidade de uma camponesa junto a objetos e comidas do cotidiano. Veermer age como um fotógrafo ao descrever com suavidade e com riqueza de detalhes a cena descrita.


 
A partir do século XVIII, na Espanha, a natureza-morta começou a ter mais prestígio nas classes sociais mais abastadas. O peixe, por exemplo, deixou de ser representado a partir de uma manifestação religiosa para retratar o elevado poder econômico de seu consumidor. Como Madri era localizada no centro do país, distante do mar, o peixe fresco era um produto muito mais caro do que o seco e, por conseguinte, era apenas adquirido por classes sociais com maior poder aquisitivo. 

No século XIX e no início do século XX, a natureza-morta afasta-se definitivamente de qualquer gênero preestabelecido. A partir do estudo de novas técnicas, mediante a aplicação de cores, composições, perspectivas, ela serviu para a pesquisa plástica dos artistas. O naturalismo do século XVII definitivamente perderia sua importância em prol das novas concepções estéticas na arte. 

Na obra de Cézanne, “Natureza morta com maçãs e laranjas”, por exemplo, há uma preocupação estética por parte do artista que não se resume, apenas, à mera representação científica do objeto. A distorção provocada pelos objetos pintados, tomando como origem diversos planos de perspectiva, denota um afastamento dos preceitos do Naturalismo. Cézanne, nessa obra, preocupa-se em preencher todo o espaço da tela, aplicando assim novas técnicas de angulação nessa representação. A realidade, agora distorcida, representaria dois pólos distintos: o da realidade científica e o da visão que retratava distintas “realidades”.


Arte e Representação 




Essa obra do pintor Magritte, “Isto não é uma maçã”, exemplifica uma possível discussão sobre diferentes interpretações oriundas daqueles que observam um objeto. O artista quis demonstrar que a maçã pintada na tela não retratava a realidade. Magritte, associado aos surrealistas, questionava o que era a realidade.
 
Conforme afirmava Fernand Léger, “é tarefa do artista fazer algo tão bonito quanto a natureza, mas em imitar a natureza”. Assim, evidencia-se o caráter criativo e individual do olhar e do registrar. 

Em 1959, Marcel Duchamp tratou o tema da natureza-morta de forma irônica e divertida quando construiu a obra “Escultura morta”. Ele fez críticas à arte tradicional, defendendo que arte não era o que víamos, mas sim o que pensamos ao observá-las. 

É importante, também, levar ao conhecimento dos alunos a dificuldade de se fazer uma natureza-morta; dado o tempo necessário para a pintura, muitas vezes o artista tem de conviver com a deterioração do produto observado, no caso de alimentos naturais, peixes, etc. Isso faz com que o autor da obra muitas vezes tenha de refazê-la, demonstrando a importância da observação, da memória e da sensibilidade na pintura.

Objetivos
- Perceber a “natureza-morta” como um estilo que faz parte de determinado contexto histórico-social e que, como qualquer estilo dentro das artes, surge na tentativa de questionar e dialogar com os padrões estéticos preestabelecidos;

- Fazer com que os alunos experimentem e explorem uma nova possibilidade dentro da linguagem artística da pintura, tema natureza-morta;

- Compreender e utilizar a arte como linguagem e modo de expressão, articulando a percepção do objeto, a imaginação, a emoção, a memória, a sensibilidade e a reflexão para produzir;

- Construir uma relação de autoconfiança com a própria produção artística, aprendendo assim a respeitar sua obra e a dos colegas, bem como saber receber e elaborar críticas;

- Observar a relação entre arte e realidade, construindo um posicionamento crítico a respeito das obras e relacionando-as ao seu contexto histórico-social;

- Desenvolver nos alunos o interesse pela história da arte;

Conteúdos
- Natureza-morta;
- História da Arte;
- Técnicas de observação e produção: desenho e pintura;

Ano
6º ao 9º anos 

Tempo estimado
Dois meses

Materiais necessários
- Algumas imagens reproduzindo quadros clássicos de natureza-morta, facilmente encontradas em livros didáticos e/ou de história da arte, e na internet;
- Uma fruteira, contendo frutas com cores diferenciadas; preferência para as frutas artificiais, dado o tempo de exposição; objetos inanimados, como garrafas, copos, um porta canetas com objetos de diferentes cores;
- Papel para desenho, cartolina, tintas (guache), pincéis, lápis de várias numerações, borracha, papeis coloridos para recorte, cola, lápis de cor e outros materiais adicionais que o professor considerar necessários para o desenvolvimento da atividade.

Desenvolvimento das atividades
O desenvolvimento do projeto será feito basicamente em 3 fases: contextualização e história, observação e produção (desenho), pintura e exposição. Durante todas as etapas, é importante que os alunos desenvolvam um relatório de tudo o que fazem: isso ajudará no desenvolvimento crítico deles em relação às suas próprias obras, às obras do colega e à arte em geral. Esse relatório pode ser usado, também, na última etapa do projeto, quando serão discutidos os resultados.

Primeira etapa
Durante a primeira etapa de realização do projeto didático, o professor deve dar uma breve contextualização sobre o tema para os alunos. Selecione os aspectos importantes sobre a natureza-morta e leve imagens de natureza-morta para os alunos. Divida a sala em grupos de, no máximo, 5 (cinco) alunos. Distribua as imagens entre os grupos e peça que observem com atenção. Eles devem anotar todas as características que perceberam nas pinturas, como as formas, as cores, as sombras, a luz, os objetos, o estado dos objetos. Com as anotações em mãos, peça que os grupos troque as imagens e discuta com eles os elementos observados. O que um grupo observou é o mesmo que o outro observou? O que há de diferente? O que há de igual? Quais os elementos que foram mais relatados pelos alunos? Essa etapa ajudará a desenvolver nos alunos o olhar e fará com que percebam a importância da observação e da história da arte. Esqueça os conceitos pré-concebidos: deixe a coisa bem livre para que os alunos observem o que quiserem, e relatem o que quiserem.

Segunda etapa
Nas etapas posteriores, trabalharemos com diversas técnicas de desenho e observação. O professor pode escolher as que preferir. Sugiro que sejam desenvolvidas pelo menos 3 técnicas de desenho, uma em cada aula, por exemplo, para que o projeto tenha uma seqüência. Desenhar é mais do que representar objetos por meio de linhas e formas. Desenhar é fruto da imaginação individual de cada pessoa e, conseqüentemente, a possibilidade de cada universo individualizado ser compartilhado dentro de uma coletividade. As possíveis técnicas são:

1. Desenho Cego – é a técnica em que o aluno observa um objeto, percebendo suas características e formas, sem olhar para o papel, a fim de reproduzir exatamente o que é decodificado pelo cérebro através da visão. É um processo que auxilia no desenvolvimento da percepção e da concentração dos alunos. Leve uma fruteira/objetos para a sala de aula e peça que os alunos simplesmente observem o objeto e desenhem SEM OLHAR PARA O PAPEL. Peça para que eles troquem de desenho com o colega e discutam os resultados entre si (imaginei que o desenho ficaria assim? O que há de diferente em relação ao objeto real? O que isso representa?) 

2. Desenho de Memória - por meio dessa técnica, o aluno treina a “representação” da realidade decorrente do processo de memorização, ou seja, a execução de uma imagem mental transportada para o papel. Peça que eles observem o objeto durante um tempo específico, prestando atenção na forma, na sombra, na disposição. Retire o objeto do campo de visão dos alunos e peça que eles desenhem o que lembram terem visto. Discuta usando o mesmo método anterior. 

3. Desenho de Observação (ou desenho natural) – é a representação exata que fazemos do mundo, mediante o exercício do olhar. Com uma régua ou lápis nas mãos, diante dos olhos, o aluno poderá ter uma idéia das relações de proporção do objeto. As medidas de largura e altura facilitam o limite do objeto no papel. Essa técnica se diferencia do desenho cego por permitir uma constante comparação entre o tamanho do objeto real e o espaço ocupado por uma folha de papel em branco. Divida a turma em grupos de 4 ou 5 alunos e coloque suas carteiras em círculo. Coloque os objetos no centro da mesa, lembrando aos que os mantenham exatamente na mesma posição. Oriente-os para que reproduzam o que vêem observando, cada um em sua carteira, o objeto que vêem. É interessante que usem uma régua para medir o objeto, o que ajuda a reproduzir sua proporção e perspectiva. Discuta com os alunos, depois disso, os diferentes desenhos feitos pelos diferentes ângulos de observação. 

4. Desenho baseado em figuras geométricas – os objetos observados podem ser interpretados como representações de inúmeras figuras geométricas, como quadrados, triângulos, círculos, losangos, entre outras. Peça que os alunos reproduzam o que vê com figuras geométricas simples. Você também pode levar papéis coloridos e revistas para a sala de aula, pedindo que os alunos reproduzam o objeto observado através de uma colagem com figuras geométricas recortadas. 

5. Desenho que represente impressões sensoriais – por meio dessa técnica, os alunos poderão desenhar o que representa a observação de um determinado objeto, por meio de cores, ideologias, distorções, diferentes traçados e texturas. Essa é uma atividade mais livre, que exige mais criatividade e imaginação por parte do aluno. Eles podem, nesse caso, fazer uma “obra coletiva”. Reúna-os em grupo e peça para que cada aluno acrescente um elemento à obra, seja um desenho, um recorte, algo escrito, qualquer coisa que venha à mente no momento em que ele observa o objeto.

Terceira etapa
Chegou a hora dos alunos pintarem de fato. Nessa etapa, é importante não deixar de lado os elementos essenciais à observação e à pintura, como as cores, a forma, a sombra, os planos e a perspectiva. Inicialmente, você pode discutir com os alunos, através de obras apresentadas, o significado das cores, as formas utilizadas pelo artista, a distância dos objetos e ouros elementos do quadro. O mesmo pode ser feito com os desenhos que eles produziram. Lembre-se de que determinados objetos podem ser identificados por suas cores, como uma banana, amarela, uma mação, vermelha, o Sol, amarelo, etc. Quanto às sobras, vale destacar que ela pode ocultar determinadas características do objeto que o pintor considera indesejadas, bem como mudar a cor do objeto. Faça com que os alunos percebam, nos quadros apresentados, de onde vem a luz e onde a sombra é projetada. Em relação à perspectiva, procure fazer com que os alunos percebam as diferentes formas de se observar o objeto, afastando-o mais, aproximando-o, colocando outros objetos na frente, atrás, mudando o aluno de posição. Vale lembrar que a natureza-morta não é necessariamente representada pelos clássicos processos de formação de perspectiva. A perspectiva distorcida dos objetos pode demonstrar a possibilidade da existência de mais de uma visão da “realidade”.
 
Essa etapa pode ser desenvolvida com os alunos em grupo ou individualmente. Separe todo o material necessário, como pincéis e tintas, e peça, primeiramente, que os alunos façam um esboço do que irão pintar utilizando uma das técnicas de desenho da segunda-etapa. Com o desenho já pronto, misture cores, auxilie-os na confecção da cor adequada e peça que pintem o que vêem, dando sempre destaque para as cores e a forma. Depois das pinturas prontas, siga o mesmo procedimento de discussão adotado: os alunos devem trocar de desenho e perceber os elementos presentes em um e em outro, as semelhanças e diferenças, as características mais proeminentes e, sempre, desenvolvendo um olhar diferenciado em relação às produções: é igual à realidade? Lembra a realidade? É diferente em que sentido? Tenha cuidado para que os alunos não desenvolvam uma visão do tipo “meu desenho é melhor que o seu”; na arte não há competição, mas desenvolvimento crítico, estético, emocional. Cada desenho/pintura terá as características próprias daquele aluno.

Produto final
Ao final do projeto, o professor terá em mãos vários produtos: os “relatórios” reproduzindo o que os alunos observaram acerca de suas próprias produções e dos colegas, os desenhos e as pinturas. É interessante fazer uma “exposição” na escola para que as obras também sejam apreciadas e discutidas por outros alunos.

Avaliação
Sugiro que a avaliação seja feita de três formas: de diagnóstico, no início da primeira etapa do projeto; durante o próprio desenvolvimento do projeto, observando a interação dos alunos em grupo e com as atividades propostas, observando como as atividades transformam seu conhecimento e sua visão da realidade; e ao final da realização do projeto, avaliando as próprias produções e a forma com que os alunos aprenderam os conteúdos propostos. 

Quer saber mais?

Bibliografia e Internet
1. Site com informações sobre o pintor Cândido Portinari
2. ARANHA, Cecília Camargo e VIEIRA, Rosane Acedo. Arte – Livro 1, Ensino Fundamental II, Ed. Escolas Associadas
3. ARANHA, Cecília Camargo e VIEIRA, Rosane Acedo. Arte – Livro 2, Ensino Fundamental II, Ed. Escolas Associadas
4.Casthalia
5. Wikipedia
6. GOMBRICH, E.H. A História da Arte. Editora Guanabara, 4ª ed.
7. HADDAD, Denise A. e MORBIN, Dulce G. – A Arte de fazer arte (Sexta Série) – Editora Saraiva

 

Consultor Rogério Bettoni

Formado em Filosofia pela UFSJ, pós-graduado em Língua Inglesa: Tradução pela UFMG. Vencedor do Prêmio Educador Nota 10 2007. Atualmente, traduz livros de Filosofia, Artes e Humanidades para diversas editoras do país. Ministra aulas de Filosofia, Sociologia e Artes Visuais para o Ensino Fundamental e Médio e trabalha como produtor de vídeo-arte independente.

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