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Ensino Fundamental II
Língua Portuguesa Língua Escrita Leitura

Plano de Aula

Análise do conto O Enfermeiro

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Objetivos
• Conhecer os procedimentos da análise literária.
• Reconhecer a complexidade da obra machadiana.
• Entender a importância dos escritos machadianos para a compreensão da estrutura social brasileira.
• Discutir as relações entre literatura e sociedade.

Conteúdos
• Procedimentos de análise literária.
• Forma literária.
• Estrutura social brasileira no sistema escravista.

Ano
8º e 9º.

Tempo estimado
Sete aulas.

Material necessário
Uma cópia do conto O enfermeiro para cada aluno.

Desenvolvimento
1ª ETAPA
Leia o conto com a classe e interrompa a leitura sempre que precisar esclarecer os vocábulos desconhecidos.

2ª ETAPA
Leia novamente o conto para assegurar a compreensão do enredo.

3ª ETAPA
Em aula dialogada, analise o conto de Machado seguindo os passos do roteiro de análise literária abaixo.

a) Paráfrase
A paráfrase é a primeira parte da análise. Ela corresponde à questão “o que fala o texto?” É um resumo do enredo, um “contar história com as próprias palavras”. Por isso deve ser curta e objetiva. Deve resumir-se apenas ao essencial.
Exemplo: O conto O Enfermeiro narra a história de Procópio, um homem do Rio de Janeiro que vai para o interior trabalhar como enfermeiro para um velho coronel muito doente. Durante um bom tempo ele agüenta o mau humor e as agressões verbais do coronel com paciência e resignação. No entanto, quando o velho parte para a agressão física, o enfermeiro perde a cabeça e o estrangula. O doente morre e Procópio esconde o assassinato declarando que ele morreu dormindo. Ao voltar para o Rio, o ex-enfermeiro descobre-se herdeiro universal do coronel. Sentindo-se culpado pela morte do ex-patrão, decide doar aos pobres toda a herança. Com o tempo, porém, convence-se de que aquela morte foi uma fatalidade e passa a gozar a herança inesperada.

b) Questão norteadora e hipótese interpretativa
Quando analisamos um texto de ficção, temos como objetivo construir uma interpretação dele ao final da análise. Porém, se por um lado a interpretação é uma conseqüência do que foi investigado na análise, por outro é a própria interpretação que norteia a análise toda. Como assim? Ao analisarmos um conto, estamos buscando elementos para atingir o seu sentido mais profundo, em outras palavras, para interpretá-lo. Ao mesmo tempo, desde o início temos em mente uma idéia do que o conto significa, uma hipótese interpretativa ou um elemento que nos deixou intrigados. Por exemplo, sabemos com toda certeza por que Procópio enriqueceu: ele herdou a fortuna do coronel. Mas não sabemos exatamente de que forma ele deixou de sentir-se culpado por sua morte e desistiu de doar todo o dinheiro. Também não fica muito clara a razão daquela explosão tão repentina de ódio, que o leva a matar o velho, visto que Procópio ainda não tinha tido nenhuma reação mais intensa diante dos maus tratos que sofria – a não ser a decisão de deixar o doente, tomada pouco antes.

Em uma obra literária de qualidade, há sempre algo a ser respondido pelo leitor. A interpretação se constrói por um trabalho de leitura do qual participam ativamente tanto o escritor quanto o leitor. O autor deixa pontos obscuros e cabe ao leitor formular as perguntas e criar as respostas. Para responder essas questões menos evidentes na leitura do conto, chamadas aqui de “questões norteadoras”, precisamos criar as nossas hipóteses de leitura, nossas “hipóteses interpretativas”.
Exemplo de questões norteadoras: por que Procópio, que parecia tão resignado e paciente, de repente pula no pescoço do coronel e o mata? E como ele se livra da culpa e decide desfrutar a herança? 

Exemplo de hipóteses interpretativas: Acho que o assassinato do coronel pode ter sido uma explosão de ódio acumulado em função das muitas agressões sofridas no convívio com o doente. Nesse sentido, o ferimento com a moringa teria sido a “gota d’água” para o enfermeiro. Quanto à herança, talvez a ganância e a possibilidade única de mudar de vida tenham sido mais fortes para Procópio do que seus sentimentos cristãos.

c) Análise
Analisar é desmontar o texto, verificar quais são as partes que o compõem e como elas se articulam. Cada obra literária tem inúmeros elementos que, articulados, a constituem. A idéia não é investigar todos – nem seria possível – mas apenas alguns. Quais? Em primeiro lugar, aqueles que sirvam para responder à questão norteadora. A análise deve construir argumentos que sustentem a interpretação. É ela que vai conduzir o leitor por meio do seu raciocínio. Como se, lendo sua questão, o leitor dissesse “também não entendi” ou “não acho esta questão pertinente”. Sua análise é o caminho para convencê-lo.

É preciso ressaltar ainda a contribuição que alguns aspectos formais possam vir a ter na interpretação do conto. O que são “aspectos formais”? São elementos que se referem menos diretamente a o que está sendo dito e mais ao como está sendo dito. O tipo de narrador, a caracterização de algum personagem, o tempo, o espaço e o tipo de discurso são alguns dos elementos formais que podem ser fundamentais para desvendar mistérios. Se você observar bem o conto escolhido, não será difícil perceber algo que, em sua forma, lhe chame a atenção. Por exemplo, o fato de este conto ser narrado em primeira pessoa, em tom confessional (Procópio revela a história apenas por estar à beira da morte), não pode passar despercebido, pois indica que algo desabonador será descoberto. Também chama a atenção o personagem do coronel, que se delicia em ofender e humilhar os que o cercam. Algumas frases também parecem ambíguas, como a do penúltimo parágrafo (“...mas a verdade é que ele devia morrer...”) e o epitáfio que Procópio recomenda para si próprio (“Bem aventurados os que possuem, porque eles serão consolados”).

Existem inúmeros elementos passíveis de análise em uma boa obra literária. Se conseguirmos ter uma boa questão (que se refere mais ao conteúdo) e ainda um olhar atento no que se refere à forma, então já será possível traçar um caminho seguro pelo qual nossa análise pode seguir. Retomemos isso depois. Exemplo resumido de análise: O parágrafo inicial de O Enfermeiro sugere ao leitor que algo de muito grave será confessado, pois o narrador só ousa confessá-lo por estar moribundo. Quando ele parte para a história em si, temos idéia de sua condição de homem livre (estamos no Rio de Janeiro, em 1860, quando ainda vigorava a escravidão no Brasil), pobre e obrigado a prestar serviços de copista para um padre (seu ex-colega de colégio) em troca de moradia e comida.

A oportunidade de trabalhar como enfermeiro para o coronel Felisberto lhe parece ótima, dado que, além de casa e pão, receberia também um bom salário. Mas o coronel, apesar de velho e muito doente, se aproveita de suas prerrogativas de rico proprietário para divertir-se humilhando os que, como Procópio, dele dependem. “Tinha perto de sessenta anos, e desde os cinco toda a gente lhe fazia a vontade. Se fosse só rabugento, vá; mas ele era também mau, deleitava-se com a dor e a humilhação dos outros.” 

Por falta de alternativa melhor, o enfermeiro decide resignar-se aos maus-tratos do velho, que não demoraram a se estender da agressão verbal para a física. Primeiro, o coronel Felisberto “pegou da bengala e atirou-me dous ou três golpes. Não era preciso mais; despedi-me imediatamente...”. No entanto, por insistência do doente, o enfermeiro acaba ficando, aparentemente conformado com os maus tratos: “Eu, com o tempo, fui calejando, e não dava mais por nada; era burro, camelo, pedaço d’asno, idiota, moleirão, era tudo. (...) Mais de uma vez resolvi sair, mas instado pelo vigário, ia ficando.” 

Depois de um ano trabalhando para o coronel, Procópio decide finalmente ir embora (“Já por esse tempo, tinha eu perdido a escassa dose de piedade que me fazia esquecer os excessos do doente; trazia dentro de mim um fermento de ódio e aversão.”) e combina com o vigário o prazo de um mês para que se procure um substituto. Note que eu usei citações de trechos do conto. Isso não só é possível como geralmente é muito útil. Quanto mais sua análise der voz ao texto, melhor. 

É então que, em seus acessos de raiva, o coronel atira no enfermeiro primeiro um prato de mingau e depois uma moringa que lhe atinge o rosto. “...tal foi a dor que não vi mais nada; atirei-me ao doente, pus-lhe as mãos ao pescoço, lutamos, e esganei-o.” Muito irritado e com muito medo de ser preso, Procópio disfarça as marcas no pescoço do cadáver e declara que o coronel amanheceu morto. A mentira não é questionada e o enterro decorre tranqüilamente. De volta ao Rio, o remorso perturba o ex-enfermeiro: “...não ria, falava pouco, mal comia, tinha alucinações, pesadelos...” 

Sabendo-se herdeiro universal do coronel, a culpa o inspira a doar toda a herança recebida. “Não era só escrúpulo; era também o modo de resgatar o crime por um ato de virtude; pareceu-me que ficava assim de contas saldas.” No entanto, conforme vai se aproximando o recebimento da fortuna, Procópio desenvolve um mecanismo de auto-ilusão em que se convence de que o crime foi na verdade uma luta e uma fatalidade. Era possível até que tivesse havido uma coincidência entre morte e luta, dado que a vida do coronel estava mesmo por um fio. Aliado a isso, o consenso dos moradores da vila em relação à perversidade do morto acabou por dissipar da alma do ex-enfermeiro a idéia da doação total, que se restringe a algumas poucas obras de caridade. 

Em uma análise assim, tão próxima da paráfrase, o que se pode interpretar é que o conto fala da flexibilidade moral de um indivíduo ganancioso. O estrangulamento do coronel teria sido mesmo uma explosão de ódio acumulado durante um ano e os remorsos teriam se dissipado frente às delícias da fortuna. Trata-se de uma leitura verdadeira, mas faltam algumas questões a resolver. 

Por que o coronel, mesmo velho e muito doente, insiste em humilhar e ofender o enfermeiro pelo qual depois revela tanto apreço? E o que significa a frase dúbia “...mas a verdade é que ele devia morrer...”. Qual o sentido do epitáfio de Procópio?
Para responder a essas questões é necessário entrarmos em outra etapa do trabalho analítico.

4ª ETAPA
Faça um comentário, uma exposição do contexto histórico da obra e do funcionamento da sociedade escravista brasileira. O comentário se faz necessário no momento em que a análise solicita informações externas à obra literária para elucidar seu sentido profundo. Isso porque a literatura, apesar de sua relativa autonomia, faz parte do tecido social em que está inserida. Também determinam a obra as “...circunstâncias de sua composição, o momento histórico, a vida do autor, o gênero literário, as tendências estéticas de seu tempo etc. Só encarando-a assim teremos elementos para avaliar o significado da maneira mais completa possível (que é sempre incompleta, apesar de tudo).”
Exemplo resumido de comentário: O Enfermeiro se passa em 1860, período de apogeu do Império brasileiro. Após a independência, a única coisa que unificava as elites de todo o território nacional era a escravidão, vista politicamente como um “mal necessário”. Entre 1850 e 1860, acaba a tensão entre elites regionais e poder local e passa a ser possível a extinção efetiva do tráfico negreiro. 

No entanto, a sistema colonial escravista produzira na sociedade brasileira uma camada de homens livres pobres que, não sendo proprietários e impedidos de se proletarizar, permaneceram à margem do sistema e, do ponto de vista da produção econômica, sem razão de ser. Restou a essa camada significativa da população a alternativa de sobreviver dos favores dos grandes, de escassas e mal-remuneradas profissões liberais (barbeiro, costureira etc.), de pequenos golpes ou furtos. O nosso copista-enfermeiro, Procópio José Gomes Valongo, pertence à camada dos homens livres na ordem escravocrata, dependente dos favores de um ex-colega ou de trabalhos raros e, no caso do coronel Felisberto, ultrajantes.

5ª ETAPA
A partir da exposição anterior, também em aula dialogada, apresente a interpretação do conto. A interpretação corresponde à questão “do que fala o texto?”. Ela é a exposição do sentido profundo da obra literária. É ele que estamos buscando desde o início. Quando analisamos, queremos saber o que está dito por meio dos silêncios, nas entrelinhas; o que se origina da relação íntima entre forma e conteúdo. Se na análise desmontamos o texto em partes, na interpretação temos de reorganizá-lo como um todo, um todo de sentido capaz de reunir forma e conteúdo. Por isso, é essa a hora de dar resposta às questões pendentes.
Na sociedade escravista brasileira, as possibilidades de ascensão social eram quase nulas. Quem nascia escravo havia de morrer escravo e, para os homens livres, não era possível o enriquecimento por meio do trabalho. A ascensão era rara e, se ocorria, era de se esperar que houvesse no meio herança, matrimônio, sorte ou crime. Quando o enfermeiro perde a cabeça e mata o coronel, seu ódio acumulado inclui não apenas um ano de ofensas, mas toda uma vida de parasitismo e sujeição. Da mesma forma, o coronel, acostumado desde pequeno a agir como o senhor de escravos que era, não poderia reconhecer no enfermeiro pobre e dependente alguém a quem se devesse tratar com respeito e consideração. 

Procópio ascende socialmente por crime, herança e sorte. Sua torção moral em relação aos remorsos que deveria sentir pode ser atribuída à ganância, mas é bom lembrar que aquela seria a única oportunidade de sair da condição de subordinação na qual vivera até os quarenta e dois anos de idade. A herança o faria enriquecer e também o livraria das dores de sua condição (necessária) de parasita dos mais abastados. Voltemos à frase ambígua do penúltimo parágrafo: “Os anos foram andando, a memória tornou-se cinzenta e desmaiada. Penso às vezes no coronel, mas sem os terrores dos primeiros dias. Todos os médicos a quem contei as moléstias dele, foram acordes em que a morte era certa, e só se admiravam de ter resistido tanto tempo. Pode ser que eu, involuntariamente, exagerasse a descrição que então lhes fiz; mas a verdade é que ele devia morrer, ainda que não fosse aquela fatalidade...” Ao que parece, o narrador refere-se à saúde frágil do velho Felisberto, mas a ambigüidade da construção sugere também o ódio e o desejo de morte do homem pobre em relação ao proprietário abusado. Daí a paródia altamente irônica do epitáfio: “Bem aventurados os que possuem, porque eles serão consolados”.

6ª ETAPA
Comente com a turma a distância entre a compreensão inicial do conto e a consciência de sua complexidade após o trabalho interpretativo.

7ª ETAPA
Discuta as relações entre literatura e sociedade e a importância de encarar a literatura como um objeto de conhecimento.

Avaliação
Proponha um trabalho de análise de outro conto de Machado, preferencialmente em grupos pequenos. Avalie se os estudantes conseguem formular questões pertinentes à obra, se distanciar da leitura parafrástica e construir interpretações coerentes.

Consultoria: Helena Weisz

Professora de Língua Portuguesa e especialista em Literatura, de São Paulo

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