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Direto da redação

Histórias de jovens adultos

por Gustavo Heidrich

Repórter

16/07/2008 - 18:25

Um professor de Jovens e Adultos

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Arquivo pessoal Crédito da foto

Depois de contar a história de uma aluna de EJA, a Gislene Gonçales, escrevo aqui o relato de um professor de Jovens e Adultos. É o José Hilton, que vocês estão vendo na imagem acima e que dá aula em Serra Pelada no Pará. Espero que gostem e comentem. Um abraço.

"Ficar rico. Era esse o sonho do meu pai e de um monte de homens que saíram do Maranhão nos anos 80 e 90 com um destino: Serra Pelada no Pará. Eu tinha 10 anos quando deixamos São Pedro da Água Branca no extremo oeste do estado e chegamos naquele que, na época, era o maior garimpo a céu aberto do mundo.

Chegamos quando Serra Pelada estava no final. O auge, na metade dos anos 80, quando chegaram a tirar 14 toneladas de ouro em um ano, tinha ficado para trás. Os homens perfuraram tanto que a água inundou a cava do garimpo e estava cada vez mais difícil tirar alguma coisa de lá. Em pouco tempo descobrimos que as pepitas que sobravam na bateia só davam pra gente ir sobrevivendo.

Sem alternativa, voltamos para a enxada que era nosso sustento no Maranhão. Fomos para o povoado de Curral Preto há 15 quilômetros do garimpo e nos empregamos em uma roça de arroz, feijão e milho. Mesmo adolescente eu começava na lavoura às 6:30h da manhã e ia direto até às seis da tarde. Depois do trabalho, freqüentava a escola em Serra Pelada.

Apesar de adolescente não sabia ler ainda. Mas era grande minha vontade de melhorar de vida. Adorava Matemática e nos intervalos do trabalho carregava um livro de cálculo a tiracolo e ficava resolvendo contas. À noite, sempre estudava mais um pouquinho. O povo ria de mim, dizendo que eu era louco de trabalhar o dia todo e ficar em cima de livro à noite.

Com o supletivo, consegui me formar no Ensino Médio aos 19 anos. Sem chances de fazer uma faculdade, continuei na enxada até que um dia recebi uma visita. Era um funcionário da Prefeitura de Curionópolis, cidade maior que fica há uma hora de Serra Pelada. Ele me disse que comentaram com ele que tinha um peão na roça com segundo grau e que estava precisando de alguém com estudo para dar aulas para uma turma de 4ª série de uma escola municipal.

Fiquei apavorado. Eu trabalhava com enxada, no trabalho pesado e de repente virar professor!. Mas achei que era a oportunidade que eu estava esperando. Topei e prometi fazer meu melhor. Assim começou minha carreira nas salas de aula que já dura quase dez anos.

Larguei a roça e consegui ser aprovado no vestibular da Universidade Estadual do Vale do Acaraú (UVA) em Belém, a capital do Pará. Continuei dando aulas nos quatro anos e meio de duração do curso de Pedagogia. Não foi fácil levar a jornada dupla, mas foi na faculdade que conheci Paulo Freire, Piaget e toda bagagem teórica que eu não tinha para ser um professor. Durante o curso meu pai morreu de derrame em um bar em Curral Preto. Até hoje lamento que ele, que não sabia ler, não tenha me visto formado.

Hoje tenho 27 anos e, além de professor, me tornei formador de professores. Sou o responsável por instruir os mestres de Matemática que dão aula para as turmas de 5ª a 8ª séries do Ensino Fundamental em Serra Pelada. Mas o trabalho que me dá mais gosto são as aulas que dou à noite para Educação de Jovens e Adultos (EJA). É emocionante ver pessoas com 50, 60 anos que trabalharam a vida inteira na roça, aprendendo a fazer contas pela primeira vez. O importante é ter vontade de melhorar e aprender, como eu tive.

Antes e depois

Quando trabalhava na roça, eram 12 horas diárias na enxada, no meio de formigas e cobras, às vezes com chuva ou o sol quente do Pará. Eu e meu pai ganhávamos por quantidade colhida ou plantada. Um dia árduo de trabalho rendia uma média de R$ 12. Hoje, assumo a primeira sala de aula às 6:30h e sigo dando aulas até a hora do almoço. À tarde, quando não tenho mais aulas, e nos finais de semana, estudo e me dedico ao trabalho de formação de professores. À noite dou aula nas turmas de jovens e adultos. Ganho R$ 1 mil por mês e tenho minha própria casa em Serra Pelada. Não tem muitos móveis, mas não faltam livros por lá."

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