Se as paredes da sala dos professores tivessem ouvidos, escutariam conversas sobre o cotidiano das salas de aula, divagações e confissões importantes que vem do íntimo e da história de cada um. É neste espaço que os professores se reúnem e, que entre um cafezinho ou um ajuste no conteúdo da próxima aula compartilham assuntos de dentro e de fora da escola. Quantas vezes um professor já não participou de conversas sobre crianças que baixaram a calcinha/cueca ou sobre aquele aluno difícil que fica o tempo todo com a mão nos genitais durante a aula? E aqueles casos de namoro? Do aluno homossexual? E da conversa das meninas que querem ficar?
Isto tudo sem contar os casos mais graves como o da gravidez, daquela excelente aluna, ou da transa sem camisinha, pior, sem o medo de pegar uma DST ou até mesmo Aids. Casos comuns na grande maioria das escolas e nem tão novos, mas as dúvidas sobre no que acreditar e como agir para ajudar os alunos, ainda continua sem respostas para a maioria dos professores.
O nó que as escolas precisam desatar
Sexualidade se trata de um tema permeado por tabus e preconceitos, regido por valores culturais e de ordem pessoal, sobre o qual poucos professores adquiriram o hábito e a naturalidade para conversar a respeito. E isto é natural. Conversar sobre sexualidade é um fato recente, e a nossa cultura, até pouco tempo cultivava uma postura de negação da sexualidade, com uma educação que induzia a vergonha, a culpa e a ignorância.
Muitos de nós passamos por experiências que quando não éramos punidos, ou no mínimo ficávamos sem resposta. Ouvi mulheres que ao menstruar, não sabiam o que estava acontecendo com seu corpo; professores que sofreram com os tabus da masturbação, sem contar a solidão e a culpa das descobertas sexuais. Sexo era uma conversa proibida! E por isso, mesmo entendendo a importância de se falar sobre sexo com seus alunos, muitos professores ainda encontram dificuldades.
Mas, o desafio da escola não termina ai. A Orientação Sexual se caracteriza por uma intervenção na educação sexual das pessoas para gerar novas respostas. Não basta o professor falar sobre sexualidade. É necessário alterar a sua cultura sexual e prepará-lo para, identificar as necessidades dos alunos, fazer o diagnóstico da situação, definir os objetivos, identificar os resultados esperados e traçar uma estratégia de intervenção.
Para isso, é necessário desenvolver no professor o papel de orientador sexual, mas, não apenas daqueles interessados, e sim de todos os professores indiscriminadamente. Como tema transversal, a orientação sexual exige uma política de integração entre as áreas e a participação de toda comunidade escolar no processo de aprendizagem dos alunos.
A Orientação Sexual na escola
A Orientação Sexual vem sendo desenvolvida em vários lugares, mas é a Escola um dos locais mais apropriados para se realizar este tipo de trabalho, por ter uma estrutura adequada para proporcionar o aprendizado formal e por ser o lugar freqüentado por um grande número de crianças e jovens, continuamente, durante várias horas do seu dia e por um longo período de sua vida. A escola é a principal fonte de aprendizado de convivência em sociedade, e tem toda condição para transmitir e confirmar valores e condutas que podem contribuir para a melhoria da saúde e da qualidade de vida dos alunos.
A orientação sexual é uma intervenção no processo educacional de caráter preventivo, intencional e, em geral, sistemático. Ela é uma ação que para poder ser exercida é necessário que os professores saibam o que estão fazendo e, principalmente para quê. Se a resposta promover o desenvolvimento de comportamentos compatíveis com as capacidades que se espera do aluno, vá em frente!
A orientação sexual deve promover ao aluno, uma outra forma de se lidar com um mesmo fato, preenchendo lacunas nas informações que as crianças e os adolescentes têm para encontrar respostas para suas curiosidades e dúvidas; e para fazer escolhas assertivas para sua vida. Para tanto, a orientação sexual na escola é proposta em três modalidades: Orientação Sexual como tema transversal programado, extra-programação e como um tema específico/disciplina.
A Orientação Sexual como tema transversal programado: a concepção, objetivos e conteúdos encontram-se inseridos e contemplados pelas diversas áreas do conhecimento. Cada área trata a temática da sexualidade por meio da sua proposta de trabalho. Com por exemplo, o objetivo é a prevenção de gravidez e DST/Aids - se relaciona os temas pertinentes e articula, por séries e disciplinas, os conteúdos que cada uma pode contribuir.
Orientação Sexual não programada: o professor se depara com questões e/ou situações ligadas a sexualidade que estão presentes no dia a dia do colégio. Um exemplo característico - uma criança que toca seus genitais, de forma persistente, em plena sala de aula. O professor precisa ter flexibilidade e conhecimento para trabalhar esta situação no momento em que acontece e aproveitar para fazer a adequação social do comportamento sexual, ensinando as crianças o conceito de público e privado com as partes do corpo.
Orientação Sexual como tema específico ou uma disciplina é aquela que ocorre de forma sistematizada, com uma programação própria, metodologia participativa e um espaço específico dentro ou fora da grade curricular, de acordo com as condições de cada escola. Esta modalidade é sugerida pelos PCN para ser utilizada com os jovens a partir da 5a série. Nesta faixa etária, os alunos têm um interesse e uma maturidade cognitiva capaz de lidar e conversar sobre dúvidas e questões em sexualidade durante um momento específico com um determinado professor, para este fim.
Assim, ao escolher qualquer uma das formas de orientação sexual, a escola, a está inserindo no na visão e projeto educativo. Isso implica uma definição clara dos princípios que deverão nortear o trabalho de orientação sexual e sua explicitação para toda comunidade escolar. Os princípios determinarão desde a postura que o professor deve ter em relação as questões e manifestações da sexualidade na escola, até a escolha de conteúdos a serem trabalhados com os alunos. Experimente! Você pode ter uma agradável surpresa!
* obstreta diretora do Instituto Kaplan, organização não-governamental especializada em formação de professores na área de Orientação Sexual
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