Para que algumas espécies fossem capazes de se reproduzir, entre elas a humana, a natureza as fez sexuadas, criando no organismo uma necessidade vital - o sexo. Se um indivíduo não transa, ele não morre. Entretanto, se a humanidade perder o gosto pelo ato sexual, a nossa espécie morre. A relação sexual é a única forma natural de se conseguir que a gravidez aconteça. E isto faz desta função essencial, diferente de todas as outras. Enquanto cada pessoa é capaz de atender sozinha suas necessidades no que diz respeito à respiração, nutrição, locomoção, crescimento e higiene; a função reprodutiva exige a participação do homem e da mulher. Mas isto a gente só soube há pouco tempo!
Evolução sexual
Há milhares e milhares de anos atrás, na idade da pedra, não se sabia que era fazendo sexo que se engravidava. E por isso a sábia natureza fez do sexo irresistível! Era só o homem sentir o cheiro do cio no ar, que o sexo acontecia. Exatamente como todos os outros animais que se reproduzem desta forma. Mas, evoluímos, descobrimos de onde e como vêm os bebês e aculturamos a função sexual desenvolvendo novas formas de atração e relacionamentos para atender a evolução social e econômica.
Hoje, qual é o homem que consegue reconhecer pelo cheiro que a mulher está no cio (ovulando)? Com o hábito de tomar banho, perfumar-se e vestir-se, por exemplo, ela deixou de exalar no ar este odor característico, da mesma forma que se tornou capaz de ser estimulante e se estimular sexualmente fora do seu período fértil. Pois, ao longo de nossa existência, introduzimos símbolos e rituais que chamamos de erotismo e/ou romantismo – estimulantes afetivos e sexuais que despertam o desejo, torna o outro irresistível e provoca a atração sexual, independente do processo reprodutivo.
É a roupa que se veste, a forma do corpo, as palavras amorosas ou sensuais, as promessas que são feitas, o jeito de ser, olhar, acariciar, valorizar, se portar diante do ser desejado. Esta revolução cultural transformou a vida sexual dos humanos, fazendo com que o sexo deixasse de ser praticado apenas, conforme a natureza manda, mas também de acordo com os sentimentos, emoções e valores que cada um adquiriu durante sua vida – a sexualidade. Uma peculiaridade humana que tornou cada pessoa única em sua forma de se expressar e viver sexualmente.
Sexualidade: uma expressão cultural
A sexualidade é construída de acordo com os interesses sociais, religiosos e econômicos vigentes. Durante milhares de anos o sexo livre era o natural! Ninguém pertencia a ninguém e o que imperava era a lei da natureza; homens e mulheres se acasalavam, procriavam e cuidavam de suas crianças dentro de um sistema tribal. A fertilidade era concebida como um dom feminino e os filhos, apenas uma cria que precisava de cuidados e proteção até serem auto-suficientes para se alimentar e se defender.
Com o passar do tempo veio a escassez de alimento. O homem teve que abandonar a sua vida nômade e se estabelecer num pedaço de terra e domesticar os animais. Neste momento, percebendo os acontecimentos no cotidiano, a magia da maternidade foi desvendada e os filhos viraram uma questão de sangue. O homem, observando as ovelhas, percebeu que para haver a reprodução tinha macho na história! E mais, que um único macho era capaz de emprenhar mais que uma fêmea num mesmo espaço de tempo. Em um momento social e econômico no qual as colônias agrícolas se expandiam, gerando a necessidade cada vez maior de mão de obra – Quanto mais filhos melhor! O homem assume o comando do patrimônio, da família e, particularmente, da mulher. A qual em matéria de sexo, a partir daí, só era permitido com o seu proprietário. Uma marcante inversão da natureza humana, e o início do tabu do desejo sexual feminino e da fidelidade, inclusive em caso de viuvez.
Esta foi uma condição árdua para a mulher, e para isto teve que sofrer castigos, confinações para que se atingisse o objetivo: garantir a legitimidade dos filhos.
Mais adiante as religiões, e em particular a católica, adquirem força na formação e valorização das pessoas, consagrando o casamento e difundindo o sexo, exclusivamente para a reprodução, como uma doutrina. Qualquer prática sexual que se chocasse aos dogmas da igreja era uma heresia, pecado. Isto valia tanto para as mulheres como para os homens. E os tribunais da inquisição não perdoavam, oprimiam e condenavam, construindo um legado de traumas e medos para confirmar a sublimação sexual e a submissão da mulher.
Muitos interesses sociais e econômicos se transformaram neste último século, e com a evolução científica, desmistificaram crenças e quebraram tabus. Hoje, as pessoas podem obter a satisfação sexual, com direito a escolha de ter ou não um filho, além de manter a saúde sexual. No entanto, ainda não conseguimos nos livrar por completo desta herança cultural.
Sexualidade e cidadania
Como parte integrante do desenvolvimento da personalidade de todo o indivíduo, a sexualidade é moldada e expressa concretamente nas relações que a pessoa estabelece desde a mais tenra idade, com ela mesma e com pessoas que lhe são significativas.
A sexualidade é construída por três elementos primordiais: o potencial biológico, o processo de sociabilização e a capacidade psico-emocional que cada pessoa desenvolve para equacionar o conflito entre aquilo que o seu corpo pede e o que a sua sociedade permite. Neste equacionamento duas estruturas mentais são importantes: a capacidade adaptativa e a capacidade cognitiva. Ambas são responsáveis pela aprendizagem dos códigos de comportamento sociais e pela incorporação de valores embutidos neles.
Desta forma, a sexualidade, além de ser uma expressão cultural da função sexual, é também uma questão de cidadania, pois envolve valores, direitos e atitudes que diz respeito ao ser humano como um todo – social, político, educacional, religioso, biológico, psicológico e a sua história. A sexualidade é a forma de como cada um entende e interpreta seus direitos e deveres para consigo e com o grupo social a qual pertence, em relação a sua condição de gênero, a sua função reprodutiva, a sua disposição sexual e a sua capacidade de se relacionar afetivo e sexualmente com uma outra pessoa.A consciência deste fato foi a motivação que inspirou o Ministério da Educação a inserir a Orientação sexual nos Novos Parâmetros Curriculares como tema transversal.
O assunto é sexo. E é sério - capa da edição de agosto/08
* obstreta diretora do Instituto Kaplan, organização não-governamental especializada em formação de professores na área de Orientação Sexual
Texto publicado no livro do professor do material lúdico educativo Vale Sonhar, elaborado pelo Instituto Kaplan.
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